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Artigo: Fardado de certezas, a crônica de Nonato

ResumoA crônica 'Fardado de certezas' retrata o reencontro do autor com Nonato, vigilante e amigo de infância. Nonato incorpora o discurso do chefe e a farda como identidade, revelando servidão voluntária e precarização do trabalho. A memória afetiva surge como contraponto libertador à rigidez do personagem. O texto analisa a perda da autonomia crítica em contextos de subordinação social.

No artigo 'Fardado de certezas', o autor reencontra Nonato, amigo de infância que virou vigilante. Entre a farda e o discurso do chefe, uma crônica sobre servidão voluntária, precarização e a memória que liberta.

SM
Sofia Mendes Carvalho
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Artigo: Fardado de certezas, a crônica de Nonato
Foto: Imagem ilustrativa · Vistok

No artigo 'Fardado de certezas', o autor reencontra Nonato, amigo de infância que virou vigilante. Entre a farda e o discurso do chefe, uma crônica sobre servidão voluntária, precarização e a memória que liberta.

Nonato ajeita a gola da farda de vigilante diante do espelho, às seis da manhã. No canto do quarto, o ventilador gira sem espantar o mormaço. Ele é meu conterrâneo; saímos do interior juntos, quando a poeira da estrada cobria as canelas. Eu fui estudar fora; ele ficou, lutando contra a invisibilidade. A farda engomada é o primeiro escudo contra o desprezo alheio.

Montado na moto popular, conquista financiada em prestações, Nonato cruza a Ponte Metálica sob a névoa do Rio Acre. No trabalho terceirizado, repete os termos difíceis que ouviu na TV e nas redes do chefe. Falar a língua da casa-grande virou sua ponte para ser notado.

No almoço, reencontro Nonato num restaurante climatizado do centro. Ele me abraça com cheiro de infância, mas a armadura volta quando o prato chega: "A vida é dura! O chefe abriu meus olhos. O Brasil só tá ruim porque o povo não quer trabalhar." Ele defende a modernização, as câmeras inteligentes, sem ver que a empresa demitiu metade dos colegas, outros Nonatos, trocados por lentes e despidos de direitos. A precarização engoliu os companheiros, mas ele comemora, sem saber que é o próximo.

Ao pagar a conta com o cartão, Nonato ostenta a satisfação de quem se julga recompensado. Lembro que tiranos só parecem grandes porque estamos de joelhos. A servidão voluntária dispensa armas: a dominação se estrutura por ideias que pensamos ser nossas. Nonato vive acorrentado a pensamentos alheios, defendendo o chefe que amanhã o trocará por uma câmera. É a tragédia do homem pago para vigiar portões que jamais o deixarão entrar.

Guardei a lição de moral no bolso. Quem sou eu para julgar a armadura de quem precisa dela para sobreviver? Perguntei baixinho sobre o banho de igarapé, quando não tínhamos sandália e o mundo acabava na curva do rio. A armadura amoleceu por um segundo. "A gente não precisava da permissão de ninguém para existir." Ele não respondeu, mas vi o menino espiar por trás dos olhos do homem fardado de certezas.

Senti piedade, não raiva. Não se salva uma alma apontando o dedo para o cativeiro. Abracei Nonato demorado; a vida é sopro curto demais para esquecer o cheiro da própria terra. Basta recordar o chão de onde veio para entender que nenhum gigante foi maior que sua alma.

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Sofia Mendes Carvalho

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